Algumas perguntas e respostas sobre o Anarquismo (parte 1)

Para aqueles que não sabem, eu sou anarquista, mais precisamente um Anarcocomunista/Comunista Libertário e meu intuito aqui hoje é responder algumas questões sobre o Anarquismo e sobre o Ancom da maneira mais breve possível.

Anarquismo e Comunismo não combinam. Anarquismo = liberdade. Comunismo = autoritarismo.

Meia verdade, mas por quê? Primeiro vamos tomar uma retomada rápida sobre a história da palavra Comunismo que vem aproximadamente do século XIV, e durante o século XVIII ele retorna a aparecer com o francês Victor d’Hupay. Em d’Hupay, o Comunismo seria o sinônimo de viver em uma Comuna.

No entanto, a base da noção de Comunismo que temos atualmente  — livre associação, sociedade sem Estado, sem dinheiro, sem classes, sem propriedade privada dos meios de produção e distribuição — é bem variada, indo de Théodore Dézamy, Joseph Dejacque e Babeuf, que podemos chamar de pré-comunistas e pré-socialistas, até Marx.

Com isso explicado, podemos prosseguir com o Anarco-comunismo. Podemos dizer que o primeiro comunista libertário tenha sido o Joseph Dejacque com seu L’Humanisphere (O Humanisfério), e que mais tarde teria sido mais detalhado por Piotr Kropotkin.

Como Kropotkin defende em seu “Anarchist Communism: Its Basis and Principles” o comunismo anarquista se faz necessário devido ao ideal anarquista de liberdade e ser contrário às formas de Autoridade e o ideal comunista de igualdade.

O Ancom de P. Kropotkin fez/faz frente ao Anarco-coletivismo de Bakunin cujo defende uma forma de salário, uma forma de pagamento e uma forma de mercado, algo que em uma sociedade Anarco-comunista não deve mais existir. Kropotkin não só define o anarco-comunismo como o conhecemos, como também o cria para se diferenciar daqueles que em seu período (e até hoje restam seus seguidores) se denominavam como Comunistas (os autoritários como os Marxistas-leninistas, Trotskystas, Maoistas e afins). Como Carlo Cafiero defende, em seu “Anarquismo e Comunismo” há sim a possibilidade de haver a Igualdade (comunismo) sem a liberdade de fato (anarquismo), ele cita exemplos de comunidades religiosas onde haviam a Igualdade, pois o mestre utilizava as mesmas vestes e comia as mesmas comidas, no entanto ele ainda era chefe. (Exemplo meu) em “Sociedade contra o Estado” o Pierre Clastres cita algumas tribos indígenas na região da amazônia onde havia uma certa liberdade por dar certa autonomia aos membros, no entanto não havia igualdade plena.

Como já dito, o anarco-comunismo busca a Igualdade e a Liberdade em seus reais significados.

Por que os anarquistas não se unem e não vão para o meio do mato ou compram um pedaço de fazenda e vivem lá a sua sociedade anárquica?

Por alguns motivos.

Primeiro: pois isso seria de certo modo, uma forma de egoísmo por ter uma sociedade que se separou do resto para viver ao teu modo e ignorando a opressão ao redor, visto que o anarquismo busca a emancipação de toda a espécie Humana independente de qualquer fator. Não podemos construir uma sociedade alternativa anárquica com um punhado de pessoas enquanto existem outras que ainda vivem sob os males do Estado e do Capitalismo.

Segundo: com exceção dos anarco-primitivistas de influência do egoísmo, esse não é o ideal anarquista, essa pequena sociedade e/ou comuna pode sim ser considerado como UM (sim, UM, artigo indefinido) meio de ação direta contra o Estado e o Capitalismo, porém nunca o fim pois, como já disse, o anarquismo busca a emancipação de TODA a espécie humana e não só de um grupo de pessoas.

Terceiro: pela dificuldade e talvez impossibilidade disso realmente acontecer visto que quase todo território é pertencente ao Estado ou a alguma entidade privada, além da existência de uma extensa burocracia Estatal-privada que torna isso muito mais difícil, fora também a questão do imposto para o Estado ou alguma forma de pagamento ao Banco/Proprietário da terra.

Essas são algumas possíveis respostas a essa pergunta.

No anarquismo uma pessoa pode bater na outra, ela está no comprimento de sua liberdade.

Não, esse é um dos principais erros ao questionar sobre o anarquismo.

O Anarquismo não defende essa liberdade plena, ou ao menos, não essa visão de liberdade que o senso comum tem sobre o anarquismo.

A liberdade na perspectiva anarquista se baseia, antes de tudo, no respeito, no respeito a liberdade do próximo. A partir do momento que você usa sua “liberdade” para oprimir alguém, você já está deixando de ser anarquista, ou ao menos, está deixando de ser respeitoso. Claro que alcançar tal nível de respeito (tomando por base a sociedade brasileira atual) não seria um processo fácil, mas nunca dissemos que isso seria um processo fácil, nós assumimos que isso será um processo longo e demorado. Parafraseando o Malatesta, não se trata de conquistar a anarquia hoje, amanhã ou daqui cem anos, mas sim em progredir e caminhar em direção ao anarquismo, sempre. Com certeza, depois dessa frase, vão nos chamar de utópicos, e citando agora Eduardo Galenao “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Resumindo, apesar do sonho utópico, não nos envergonhamos disso, nós temos orgulho, é justamente esse desejo utópico que nos move e nos faz a cada dia, mesmo que em pequenos passos, mais próximos a anarquia..

A autoridade na perspectiva Anarquista.

Quando se trata de Autoridade e Anarquia, devemos separar as Autoridades Racionais das Autoridades Irracionais (Erich Fromm – To be or to Have). As Autoridades Racionais são aquelas baseadas na competência, autoridades que são postas de maneira natural por influência e não imposta, ou seja, são autoridades não hierárquicas, enquanto as Autoridades Irracionais são as utilizadas de maneira exploratória e opressiva, são as hierárquicas. A Autoridade Racional é temporária e necessita de constante vigilância, examinação, crítica e é aceitável dependendo de sua performance. Enquanto a Autoridade Irracional é baseada no poder sobre o individuo e/ou povo, ela é promovida por um algo externo, por uma forma de lei, ou algum tipo de “agente” externo que garante essa autoridade, podendo ser uma constituição, uma divindade (como em muitas monarquias) ou algo do tipo.

Anarquistas são contra as Autoridades Irracionais pois são elas as geradoras da desigualdade. Nós reconhecemos uma pessoa que é autoridade em algum assunto, no entanto não reconhecemos uma autoridade. Ter autoridade, ou seja, ter conhecimento ou alguma forma de sabedoria e que seja essa “influência natural” é diferente de estar em autoridade, ou se preferir, ter um aparato externo que garanta esse direito de ser uma autoridade.

 

 

 

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